segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Capítulo 5

pule (verbo). 1.-Chorar com voz frouxa ou débil, como um menino. 2. - Piar lastimosamente como uma galinha. Fiquei sem voz, estou segura de que teria que ter gemido (puled). Do dicionário pessoal de Demetria Trent  

—Ai, Deus! — grunhiu Demetria, esquecendo que supostamente estava muda.

—E quando diabos tornou sua maldita voz? — exigiu seu sequestrador.

 —Eu, né... realmente não muito.

—Verdadeiramente, Joseph — disse o segundo homem — poderia cuidar de sua linguagem. Há uma senhorita presente.

—Merda! — explodiu Joseph. — Sabe quanto tempo gastei com esta mulher? Provavelmente a verdadeira Carlotta De Leão está agora a meio caminho da China.

Demi tragou nervosamente; então seu nome era Joseph, de algum modo era apropriado para ele, curto e conciso. Perguntou-se se seria seu nome de batismo ou seu sobrenome.

—E — continuou em um arranque de fúria —posto que obviamente, você não é a mulher que disse, quem diabos é você?

—Nunca disse que era Carlotta De Leão— insistiu.

 —Ao diabo que não disse!

—Nunca disse que eu não era.

—Quem é você? Demetria meditou com cuidado esta pergunta e decidiu que o único recurso era a franqueza absoluta.

—Meu nome é Demetria Trent — respondeu. Seus olhos se encontraram com os de Joseph pela primeira vez em sua conversa. —Oliver Prewitt é meu tutor.

 Houve um momento de silêncio em que ambos ficaram olhando-a fixamente com surpresa. Finalmente, Joe se voltou para seu amigo e lhe disse gritando.

—Por que diabos não sabíamos que Prewitt tinha uma pupila? O outro homem amaldiçoou baixo, voltou a amaldiçoar, a segunda vez muito mais alto.

—Maldição se sei. Alguém vai responder por isso. Joseph se dirigiu a Demetria e lhe pediu: —Se seriamente for a pupila do Prewitt, onde esteve os últimos quinze dias? Nós estivemos vigiando a casa dia e noite e você, minha menina, seguro que não esteve vivendo nela.

—Estava em Bath, Oliver me enviou para cuidar de sua tia de idade avançada. Chama-se Marigold.

—Não me importo como se chama.

—Não pensei que lhe importasse — disse entre dentes — pensei que deveria dizer algo. Joseph a agarrou pelos ombros e a olhou aos olhos.

—Há muitas coisas que vai ter que nos contar, senhorita Trent.

—Solta-a — disse o amigo de Joseph em voz baixa — não perca a paciência.

 —Não perder a paciência? — disse Joseph gritando, soando tão forte como se já a tivesse perdido. — Entende o que...

—Pensa — disse o outro homem atentamente — tem sentido. Prewitt teve um envio que chegou a semana passada. Quereria que ela estivesse fora da cena. Obviamente ela é suficientemente perspicaz para desprezar o que ele está fazendo.

Demetria sorriu alegremente pelo galanteio, mas Joseph não parecia preocupar-se por sua inteligência de um modo ou outro.

—Era a quarta vez que Oliver me enviava a visitar sua tia — acrescentou amavelmente.

—Vê? — disse o amigo do Joseph.

Demetria sorriu um pouco insegura ao Joseph, esperando que tivesse aceito fazer as pazes, mas tudo o que ele fez foi pôr suas mãos em seus quadris e com as piores maneiras disse:

—Que diabos fazemos agora? O outro homem não tinha uma resposta, e Demetria  aproveitou seu momentâneo silêncio para perguntar: —Quem são? Ambos.

Os dois homens se olharam um ao outro, como se tentassem decidir se revelavam suas identidades, e então, o recém-chegado fez um imperceptível gesto afirmativo com a cabeça antes de dizer: —Sou James Sidwell, marquês de Riverdale e ele é Joseph Ravenscroft, segundo filho do visconde Damsby.

Demi sorriu ironicamente ante tal avalanche de títulos.

—Que bom para vocês. Meu pai era comerciante.

O marquês soltou uma forte gargalhada antes de voltar-se ao Joe e dizer:

—Por que não me disse que era tão divertida? Joe franziu o cenho.

 —Como ia saber? Não falou duas palavras desde a noite em que a capturei.

—Isso não é de todo certo. — protestou Demetria.

—Quer dizer que esteve pronunciando discursos e eu fiquei surdo? — respondeu Joseph.

—Não, é obvio que não. Simplesmente quis dizer que estive bastante entretida. O marquês tampou a boca com a mão, provavelmente para sufocar uma risada.

Demetria gemeu. Outra em uma longa lista de frases que ela soltava equivocadamente. Santo Deus! O senhor Ravenscroft deve pensar que se estava referindo ao beijo.

—O que quis dizer foi... Bom, não tenho nem ideia do que quis dizer, mas deve admitir que gostou de meus passarinhos de papel, ao menos até que se chocaram contra a roseira.

—Pássaros de papel? — perguntou o marquês confuso.

—Os... Oh, não importa, a nenhum dos dois importa, — disse Demi com um suspiro e um lento movimento negativo de sua cabeça.

—Peço desculpas por qualquer frustração que possa ter causado. Joe a olhou como se pudesse atirá-la pela janela alegremente. —Só que...

—Só que, o que?— disse ele bruscamente.

—Detenha seu mau gênio, Ravenscroft — disse o marquês — pode ainda nos ser de utilidade.

Demi tragou saliva, isso soou bastante sinistro, e o marquês, pensou que era mais afável e amistoso que o senhor Ravenscroft; parecia como se pudesse ser bastante desumano quando a ocasião o justificava.

—O que sugere Riverdale? — Perguntou Joseph em voz alta. O marquês encolheu os ombros.

—Poderíamos resgatá-la, e quando Prewitt venha a recolhê-la...

—Não! — gritou Demi, levando uma mão a sua garganta pela explosão de dor que lhe provocou o grito. —Não vou voltar, não me importa qual seja o risco, eu não me importo se isso significa que Napoleão tome a Inglaterra, não me importa se quer dizer que ambos percam seus trabalhos ou o que seja que vocês façam para o governo. Nunca voltarei. E então, no caso deles serem enormemente obtusos, repetiu: —Nunca.

Joseph apoiou o pé sobre a cama, com uma expressão dura.

—Então lhe sugiro que comece a falar, senhorita Trent. Rápido.

Demetria lhes contou tudo. Falou-lhes da morte de seu pai e seus cinco tutores posteriores; contou-lhes os planos do Oliver para conseguir o controle permanente de sua fortuna, que o malogrado Percy tentou violá-la, e por que ela precisava passar as seguintes seis semanas escondendo-se. Falou tanto que sua voz começou a desaparecer outra vez, e teve que anotar o último terço de sua história.

Joe observou severamente que quando ela utilizou sua mão esquerda para escrever sua caligrafia era maravilhosa.

—Pensei que disse que não podia escrever — disse James.

Joseph lhe olhou fixamente aos olhos com pura ameaça.

—Não quero falar disso, e você - apontando a Demi— deixe de sorrir. Ela lhe lançou um olhar fugaz, elevando as sobrancelhas em uma expressão inocente.

—Certamente pode permitir sua nota de orgulho ao te haver enganado — disse James. Esta vez Demi nem sequer tentou esconder seu sorriso.

—Continua com sua história — grunhiu Joseph.

Ela assentiu, e ele leu cada linha de sua história com severa indignação, aborrecido pelo modo em que Oliver Prewitt a tratou. Ela podia havê-lo mandado ao diabo durante os últimos dias, tanto física, como mentalmente, mas não podia negar em pequena medida que esta garota o levou a frustrar-se totalmente. Este homem que se supunha ser seu tutor, a tratou tão abominavelmente... Isto fez que se sacudisse com fúria.

—O que sugere que façamos com você? — perguntou quando finalmente parou de rabiscar a história de sua vida.

—Pelo amor de Deus, Ravenscroft — disse o marquês — dê um pouco de chá à garota, não vê que não pode escrever?

—Dê você um pouco de chá.

—Não vou deixar-te só com ela. Não seria apropriado.

—Oh, e suponho que seria apropriado para ti permanecer com ela? — zombou Joseph. —Sua reputação é mais negra que a peste.

—É obvio, mas...

—Fora! — grunhiu Demetria. — Os dois.

Ambos se voltaram de cara a ela, esquecendo aparentemente que o motivo de sua discussão ainda estava no quarto.

—Suplico-lhe seu perdão — disse o marquês.

"Eu gostaria de estar uns minutos a sós", escreveu, pondo o papel diante de seus narizes, e precipitadamente rabiscou "senhores".

—Me chame James— replicou — todos meus amigos o fazem.

Lançou-lhe um olhar irônico, duvidando claramente de que qualificasse como amizade, sua estranha situação.

—E ele é Joe — acrescentou James — Suponho que chamarei vocês dois pelo nome de batismo?

"Não soube seu nome até agora mesmo" escreveu.

—Que vergonha, Joe — disse James — que maneiras.

—Vou esquecer que disse isso — grunhiu Joseph — porque se não o faço, terei que te matar.

Demetria sufocou uma risada para seu pesar. Dissesse o que quisesse sobre o homem enigmático que a sequestrara, ele tinha um senso de humor que igualava ao seu próprio. Ela o olhou outra vez de relance, esta vez duvidando. Ao menos esperava que ele fosse brincalhão.

Lançou-lhe outra olhada inquieta. O atroz olhar que ele estava jogando ao marquês, derrubaria a Napoleão, ou ao menos deixaria uma ferida extremamente dolorosa.

 —Não faça conta — disse James alegremente — tem um mau gênio próprio do diabo, sempre o teve.

—Suplico seu perdão — replicou Joseph, muito irritado.

—Conheço-o desde que tínhamos doze anos — disse James — estudamos juntos em Eton.

—Sim? — disse com voz rouca, provando sua voz outra vez — que agradável para ambos. James disse:

—A parte desta frase não expressa, é obvio, é que nos merecemos um ao outro. Vamos, Ravenscroft, vamos dar a pobre garota sua intimidade, estou seguro de que quererá vestir-se e lavar-se e fazer todas essas coisas que as garotas gostam de fazer.

Joe deu um passo adiante.

—Ela já está vestida e nós precisamos lhe perguntar a respeito de...

Mas James levantou uma mão.

—Temos todo o dia para obter sua submissão.

Demi tragou saliva. Não gostou como soou isso.

Os dois homens abandonaram o quarto, e ela ficou de pé de um salto, jogou um pouco de água sobre seu rosto, e colocou os sapatos; era estupendo levantar-se e estirar seus músculos. Esteve metida na cama durante os últimos dois dias e não estava acostumada a tanta inatividade.

Demi corrigiu sua aparência como melhor pôde, que já era dizer muito, já que esteve vestindo as mesmas roupas durante quatro dias, estavam horrivelmente enrugadas, mas pareciam suficientemente limpas, assim ajeitou seu cabelo em uma única trança grossa; então verificou a porta, ficou encantada ao ver que não estava fechada. Não foi difícil encontrar o caminho para a escada e rapidamente desceu correndo até o piso inferior.

—Vai a algum lugar?

Ela levantou a vista bruscamente. Joe estava apoiado descaradamente contra a parede, arregaçou as mangas e cruzou seus braços.

—Chá — sussurrou ela — disse que poderia tomar um pouco.

—Disse? — disse lenta e pesadamente.

—Se não o fez, estou segura de que teve intenção de fazê-lo. Os lábios dele se curvaram em um sorriso disposto.

—Tem um código de palavras.

Ofereceu-lhe um sorriso muito doce.

—Estou praticando, depois de tudo, não as utilizei há dias.

—Não me pressione, senhorita Trent. Meu humor pende de um fio muito fino.

 —Mas bem acreditei que já se havia quebrado — respondeu — e a respeito disso, se eu o chamo Joe, você também poderia me chamar Demi.

— Demi lhe assenta muito melhor que Carlotta.

—Assim seja. Não tenho nenhuma gota de sangue espanhol, um pouco de francesa — acrescentou, sabendo que estava tagarelando, mas muito nervosa em sua presença para parar — mas não espanhola.

 —Pôs totalmente em perigo nossa missão, deste conta?

—Posso-lhe assegurar que não era minha intenção.

 —Estou seguro de que não, mas segue sendo um fato que vai ter que compensar.

—Se minhas compensações fizerem com que Oliver passe o resto de sua vida na prisão, pode garantir minha completa colaboração.

—A prisão seria improvável, a forca é uma probabilidade muito mais clara.

Demetria tragou saliva e afastou o olhar, de repente se deu conta de que sua implicação com estes dois homens podia enviar Oliver à morte. Detestava a esse homem, seguro, mas a ela não agradava ser a causa da morte de ninguém.

—Precisará descartar seu sentimentalismo — disse Joseph.

Chocada, elevou o olhar. Seu rosto era tão fácil de ler?

—Como sabia o que estava pensando? Deu de ombros.

—Qualquer um que tenha consciência deve enfrentar-se com este dilema quando entra neste negócio.

—Como você?

—É obvio, eu passei por essa etapa rapidamente.

—O que aconteceu?

Ele levantou uma sobrancelha.

—Pergunta muito.

—Nem a metade do que você fez — respondeu ela.

—Tinha uma ordem ministerial que aprovava as razões de fazer tantas perguntas.

—Por isso morreu sua prometida? Fixou seus olhos nela com tanta fúria que ela afastou o olhar. —Não importa — murmurou ela.

—Não volte a mencioná-la. Demetria deu um passo atrás involuntário pela dor áspera em sua garganta.

—Sinto muito — murmurou.

—Por quê?

—Não sei — disse, contrária a mencionar a sua prometida depois do modo em que reagira a última vez — Algo lhe faz tão infeliz.

Joe a olhou fixamente nos olhos com interesse, parecia sincera, e lhe surpreendeu; fora muito pouco considerado com ela nestes últimos dias, mas antes de que pudesse pensar em uma resposta, ouviram que o marquês entrava no vestíbulo.

—Maldição, Ravenscroft — disse James — Não poderia contratar mais criados?

Joe sorriu abertamente ante a visão do elegante marquês de Riverdale fazendo equilíbrios com um serviço de chá.

—Se pudesse encontrar outro em quem confiar, contrataria no momento. De qualquer forma, logo que acabe minhas obrigações com o Ministério de Defesa, a discrição de meus criados não terá por que ser tão grande.

—Então, ainda está decidido a deixá-lo?

—Precisa perguntá-lo?

—Acredito que quer dizer que sim — disse James a Demi — embora com Ravenscroft, nunca se sabe. Tem o horroroso costume de responder às perguntas com outras perguntas.

—Sim, notei — murmurou ela. Joseph se separou da parede.

—James?

—Joseph ?

—Te cale.

James sorriu amplamente.

—Senhorita Trent, por que não nos retiramos ao salão? O chá deve ajudá-la a recuperar a voz ao menos um pouco; uma vez que não doa ao falar, poderíamos resolver que diabos faremos com você.

Joe fechou os olhos um momento, enquanto Demetria saía detrás de James escutando como lhe dizia com voz áspera:

—Deveria me chamar Demi, ao senhor Ravenscroft já dei permissão para fazê-lo também.

Joe esperou um ou dois minutos antes de segui-los, necessitava uns momentos de solidão para pôr em ordem seus pensamentos, ou ao menos tentá-lo. Nada estava claro no concernente a ela; sentira um alívio tão grande quando descobriu que Carlotta De Leão não era realmente Carlotta De Leão. Demetria. Demetria Trent. E não gostava de manter relações com uma traidora.

Moveu sua cabeça negativamente com aversão. Como se esse fosse o único problema que enfrentava agora. Que diabos se supunha que ia fazer com ela? Demetria Trent era inteligente, muito inteligente, isto estava bastante claro, e ela odiava Oliver Prewitt o suficiente para ajudá-lo a apresentá-lo ante a justiça. Poderia custar um pouco convencê-la para que lhe ajudasse a tirar sua aversão pela espionagem, mas não muito. Depois de tudo, Prewitt tinha ordenado a seu filho que a violasse. Não era provável que Demetria desse a outra face depois de algo como isso.

A solução óbvia era que permanecesse aqui, em Seacrest Manor. Certamente teria muita informação que eles poderiam utilizar contra Prewitt. Era duvidoso que ela não estivesse a par de seu tráfico ilegal. Mas com as perguntas apropriadas, James e ele poderiam descobrir pistas que ela provavelmente nunca se deu conta que sabia. Se, além disso, ela pudesse lhes proporcionar um esboço de Prewitt Hall, seria uma informação incalculável no caso de que James e ele decidissem entrar a força.

Assim, se ela era tão bom acréscimo a sua equipe, por que estava tão pouco disposto a lhe pedir que ficasse? Sabia a resposta, não queria olhar profundamente dentro de seu coração para admiti-lo. Chamou-se covarde de sete maneiras diferentes, mas pôs em movimento seus calcanhares e caminhou a grandes passos para a porta principal. Necessitava um pouco de ar.

O que supõe que está observando nosso bom amigo Joseph? Demetria elevou o olhar para ouvir a voz do James, enquanto lhe servia o chá.

—Certamente, não é meu bom amigo — respondeu.

—Bom, eu não o chamaria seu inimigo.

—Não, não é. É só que não acredito que os amigos atem a seus amigos ao pé de uma cama. James se engasgou com seu chá.

—Demi, não tem nem ideia.

—A questão é discutível, de qualquer modo — disse, jogando um olhar pela janela — está se afastando.

—O que? — James se levantou do sofá e cruzou a sala — que covarde.

—Certamente não me tem medo — brincou ela.

James girou sua cabeça para olhá-la, seus olhos perfuravam de uma maneira tão aguda seu rosto, que ela ficou muito incômoda.

—Possivelmente sim — murmurou mais para si mesmo que para ela.

—Senhor? James agitou a cabeça, para clarear seus pensamentos, mas não deixou de olhá-la fixamente. —Disse que me chamasse James — sorriu com picardia — ou "querido amigo" se acredita que James for muito familiar.

Ela deixou escapar um bufo muito feminino.

—Ambos são muito familiares, como bem sabe. Entretanto, dada minha extraordinária situação, parece tolo discutir sobre detalhes sem importância como este.

—Uma mulher eminentemente prática — disse com um sorriso — o melhor tipo.

—Sim, bom, meu pai era comerciante — disse, fazendo uma piada (com humor) — alguém deve ser prático para alcançar o êxito em seus propósitos.

—Ah, sim, é obvio, comerciante, recordaste-me isso. Que tipo de comércio?

—Construção de navios.

—Já vejo, então, deve te haver criado perto da costa.

—Sim, em Portsmouth até mi... por que me olha tão curiosamente?

—Perdoa, estava te olhando fixamente?

—Sim — disse francamente.

—Simplesmente é que recorda a alguém que conheci, não na aparência, nem nos gestos, é mais um... — elevou sua cabeça como se procurasse a palavra correta - é mais uma semelhança de espírito, se existe tal coisa.

—Oh! — respondeu Demetria, a falta de algo mais inteligente que dizer — já vejo, espero que ela seja alguém agradável.

—Oh, sim, a mais agradável, mas isso não importa— James voltou a atravessar a sala e se sentou em uma cadeira ao lado dela.

—Estive meditando sobre a nossa situação. Demi bebeu seu chá.

—Ah, sim?

—Sim, acredito que deveria ficar aqui.

—Não há problema.

—Inclusive por sua reputação? Demi encolheu os ombros.

—Como diz, sou prática, o senhor Ravenscroft já mencionou que seus criados são discretos e minhas outras opções são voltar com o Oliver.

—O que realmente não é uma opção absolutamente — interrompeu James — a menos que queira acabar te casando com o tolo de seu filho.

 Ela afirmou com a cabeça.

—Ou posso voltar para meu plano original.

—Qual?

—Pensei procurar trabalho em uma estalagem.

—Não é precisamente uma perspectiva segura para uma mulher sozinha.

 —Sei — aceitou Demetria — mas realmente não tenho outra escolha.

James acariciou a mandíbula pensativamente.

—Estará a salvo aqui, em Seacrest Manor, asseguro-te que não lhe vamos fazer retornar com o Prewitt.

—O senhor Ravenscroft não está de acordo em me deixar permanecer aqui — recordou-lhe — e esta é sua casa.

 —Ele o fará.

Demetria pensou que James estava sendo muito crédulo, mas não obstante ele não sabia nada sobre o beijo entre Joseph e ela, Joe parecia bastante aborrecido por isso. James voltou o rosto para ela repentinamente.

—Gostaríamos que nos ajudasse a levar seu tutor ante a justiça.

—Sim, o senhor Ravenscroft também disse.

—Não te disse que o chamasse Joe?

—Sim, mas de algum jeito, parece muito...

Intimo. A palavra estava suspensa em sua mente, formando a imagem de seu rosto, sobrancelhas escuras, maçãs do rosto formadas elegantemente, um sorriso que raramente aparecia... Oh, mas quando o fazia... Era realmente embaraçoso. Demetria pensou, que um de seus sorrisos podia fazê-la sentir-se muito aturdida. E seu beijo! Meu Deus, lhe fizera sentir que possivelmente não podia ser bom para sua prudência. Inclinou-se sobre ela, e simplesmente, paralisou-se, hipnotizada por seu olhar de grossas sobrancelhas. Se ele não tivesse perturbado o momento chamando-a Carlotta, só o céu saberia o que lhe teria deixado fazer. O mais assombroso foi que ele também pareceu desfrutar do beijo. Percy sempre disse que ela era a terceira garota mais feia de toda Hampshire; entretanto, Percy era um idiota, e seu apetite sempre se dirigiu para as loiras gordinhas...

 —Demi? Ela levantou os olhos repentinamente. Os lábios de James se curvaram em um sorriso divertido. —Está embevecida.

—Oh, sinto muito, ia dizer que o senhor... er... quero dizer, Joe, já me contou a respeito de lhes ajudar a prender o Oliver. Devo dizer, que é bastante desconcertante saber que ele poderia ir à forca como resultado direto de minha intervenção; mas, se como você diz, esteve dirigindo atividades de traição...

—Tem-no feito, estou seguro disso. Demetria franziu o cenho.

—É um calhorda. Foi bastante cruel por sua parte que ordenasse ao Percy que me agredisse, mas pôr em perigo a milhares de soldados britânicos, não posso compreendê-lo. James sorriu lentamente.

 —Prática e patriota. Você, Demetria Trent, é um prêmio. Se Blake também pensasse o mesmo.

Demi deixou sua xícara de chá estrepitosamente sobre o pires; não gostava do curso que estavam tomando seus pensamentos em respeito a  Joseph Ravenscroft.

—Ah, olhe — disse James levantando-se de supetão — nosso anfitrião errante retorna.

—Como diz? James fez uns gestos em direção à janela.

—Parece ter mudado de ideia; possivelmente decidiu que nossa companhia não é realmente tão má.

—Ou poderia ser a chuva — replicou Caroline — começou a garoar.

—Então garoa, a Mãe Natureza está claramente de nosso lado. Um minuto mais tarde Blake entrou no salão com passo irado, com seu cabelo negro úmido.

—Riverdale — vociferou. — Estive pensando a respeito dela.

 —Ela está no salão— disse Demetria secamente. Se Joseph a ouviu, ele a ignorou.

—Ela se vai. Antes que Demi pudesse protestar, James cruzara seus braços.

— Não estou de acordo. Absolutamente.

—É muito perigoso. Não arriscarei sua vida. Demi não estava segura de que era um elogio ou uma ofensa. Decidiu-se por "ofensa"; geralmente, sua opinião parecia ser mais o resultado de uma pobre opinião sobre o gênero feminino que uma entristecedora preocupação por seu bem-estar.

—Não acredita que devo decidi-lo eu? — disse ela metendo-se na conversação.

—Não - disse Joe aceitando finalmente sua presença.

—Joseph pode ser bastante protetor com as mulheres — disse James, quase à parte. Joseph o olhou com ferocidade.

—Não deixarei que a matem.

—Não a matarão— respondeu James.

—E como sabe? — perguntou-lhe Joe. James riu entre dentes.

—Porque, meu querido menino, confio que você não permitirá.

—Não seja tão condescendente comigo — grunhiu Joseph.

—Minhas desculpas pelo "querido menino", mas sabe que digo a verdade.

—Há alguma coisa em relação com o que passa aqui que eu deveria saber? — perguntou Demetria movendo sua cabeça de um homem a outro.

—Não — disse Joe sem rodeios, mantendo sua vista umas polegadas por cima da cabeça dela.

Que diabos se supunha que devia fazer com ela? Era mais que muito perigoso que ela ficasse, precisava assegurar-se de que ela iria antes que fosse muito tarde. Embora ela já despertara essa parte dele que parecia manter imperturbável, a parte que lhe importava; e a razão pela que não queria que ela ficasse era singela: assustava-o, tinha gasto uma grande quantidade de sua energia emocional mantendo-se afastado das mulheres que lhe provocavam algo mais que desinteresse ou luxúria.

Demetria era inteligente. Era graciosa, condenadamente atraente, e Joseph não a queria a menos de dez milhas de Seacrest Manor. Tentara ser compassivo com ela antes. Isso quase o destruíra.

—Ah, diabos — disse finalmente— fica, então, mas que ambos saibam que estou totalmente em desacordo.

—Um fato que deixaste totalmente claro — disse James com voz cansada. Joe o ignorou e se aventurou a olhar Demi. Má ideia. Ela lhe sorriu. Sorriu de verdade, e isso fez que se iluminasse todo seu rosto e parecia tão endemoniadamente doce, e... Joe amaldiçoou entre dentes, sabia que isto era um grande engano. O modo em que lhe sorriu, como se pensasse que realmente pudesse iluminar os cantos mais longínquos de seu coração... Deus, ela o aterrava.




CONTINUA....

Eu já li todo livro e vocês não perdem por esperar.

fui ver uns capítulos da fic anterior e estava cheio de erros de digitação. Vocês nem me avisam né? Vou pegar u tempo e corrigir essas coisas. Até o próximo cap e comentem


domingo, 3 de dezembro de 2017

Capítulo 4

Nos-trum (nome). Um medicamento, ou aplicação médica, preparado para a pessoa  recomendando, um remédio curandeiro. Ele não parece ter muita confiança em seus remédios  caseiros (nostrums) mas ainda os coloca pela força em minha garganta. Do dicionário pessoal de Demetria Trent.  

Joseph a deixou sozinha durante o resto do dia. Estava muito enfurecido para confiar em si mesmo estando ela perto. Ela e sua maldita garganta muda o estavam tirando de sério, mas o certo era que, a maioria de sua cólera estava dirigida para si mesmo. Como podia ter pensado em beijá-la? Inclusive durante um segundo? Podia ser meio espanhola, mas também era meio inglesa e isto a convertia em uma traidora. E foi uma traidora que assassinara a Marabelle. Assim que o sol se pôs começou a chover, como se seu humor se refletisse; e Joe começou a pensar no pote para as penas que ela deixara no suporte para recolher água. Bufou, como se ela fosse morrer de sede depois de todo o chá que lhe fez engolir essa tarde. Mais ainda, enquanto tomava seu lanche em silêncio, não podia ajudá-la mas pensava nela, vamos, encerrada no pequeno quarto; precisava estar morta de fome, não comeu em todo o dia. —Qual é o problema contigo? — disse em voz alta. Sentindo lástima pela ardilosa e pequena espiã. Ora! Não dissera que a ia matar de fome? Nunca fazia promessas que não mantivesse.
 Além disso, ela era uma coisinha fraca, e seus olhos... seguia-os vendo em sua mente. Eram enormes, tão claros que virtualmente resplandeciam. E Joe pensou com uma mescla de irritação e remorso, que se os olhasse agora diretamente, o mais provável é que tivessem olhar de fome. —Diabos! — murmurou, ficando de pé tão rápido que golpeou sua cadeira. Podia também lhe dar um pãozinho; precisava haver uma melhor maneira de conseguir que lhe desse a informação que necessitava que matando-a de fome. Possivelmente se repartia a comida de forma avarenta, ela estaria tão agradecida pelo que lhe desse que começaria a sentir-se agradecida a ele. Ouvira situações onde os cativos começaram a olhar a seus sequestradores como heróis.

Não lhe importaria ver esses olhos azul esverdeados lhe olhando como um adorado herói. Joseph pegou um pãozinho da bandeja que havia sobre a mesa, então o voltou a colocar para pegar outro maior; e talvez um pouco de manteiga. Certamente não podia lhe fazer mal. E geleia... não. Não chegou à geleia. Ela era uma espiã depois de tudo. Quando o ouviu na porta, Demetria estava sentada sobre sua cama, entortando os olhos enquanto olhava a chama de uma vela. O ruído de uma fechadura aberta, depois outro, e ali estava ele, ocupando completamente a entrada. Como era que cada vez que o olhava parecia inclusive mais atraente que antes? Em realidade isso não era justo. Toda essa beleza desperdiçada sobre um homem, e bastante chato, além disso.

—Trago-lhe um pedaço de pão — disse bruscamente, oferecendo. O estômago de Demetria deixou sair um ruído forte quando pegou o pãozinho de sua mão. "Obrigado" gesticulou com a boca. Ele se apoiou ao final da cama enquanto ela devorava o pãozinho com pouca intenção de guardar maneiras ou decoro. —De nada. Oh, quase o esqueci — disse — também lhe trago manteiga. Ela olhou tristemente o pingo de pão que ficara em sua mão e suspirou. —Ainda quer? Ela assentiu com a cabeça, agarrou a pequena terrina de barro e molhou o último bocado na manteiga. Colocou-o rapidamente em sua boca e o mastigou lentamente, saboreando cada bocado. Graças a Deus! "Acreditei que me ia matar de fome" moveu a boca vocalizando sem sair sons. Negou com a cabeça em sinal de incompreensão. —Posso entender "Obrigado", mas isto é superior a mim; a menos que sua voz voltasse a estar em perfeito estado e pudesse realmente dizer essa frase em voz alta. Moveu sua cabeça em gesto negativo, o qual não era tecnicamente uma mentira; Demetria não provou sua voz desde que ele a deixou. Não queria saber se havia tornado ou não. De qualquer modo parecia melhor ignorar o problema. —Piedade— murmurou. Ela revirou os olhos em resposta, então deu um tapinha em seu estômago e olhou as mãos dele com ilusão. —Temo que só trouxe um pãozinho.

Demi olhou sua pequena terrina de manteiga, encolheu os ombros e cravou seu dedo nela. Quem sabia o que ia fazer quando decidiu alimentá-la? Ela precisava conseguir seu sustento de onde pudesse, inclusive se isso significava comer manteiga pura. —Oh, Por Deus! — disse — não coma isso. Não pode ser bom para você. Demetria lhe lançou um olhar sarcástico. —Como vai? — perguntou ele. Ela agitou as mãos em todas direções. —Aborrecida? Assentiu com a cabeça. —Bem. Ela franziu o cenho. —Não tenho intenção de entretê-la. Não é uma convidada. Ela revirou os olhos e deixou sair um pequeno suspiro. —Faz tempo que não se levanta esperando sete pratos de comida. Demetria se perguntou se o pão e a manteiga contariam como dois pratos. Se era assim, ainda ficavam cinco. —Quanto tempo vai continuar com esta charada? Piscou e moveu silenciosamente os lábios. —O quê? —Certamente sua voz já tornou. Ela moveu negativamente a cabeça, tocou sua garganta e pôs uma cara tão triste que ele riu. —Isso dói, né? Ela agitou a cabeça afirmando-o. Joseph passou a mão removendo seu cabelo negro, zangando-se um pouco porque esta mentirosa lhe havia feito rir mais em todo o dia, que em todo o ano anterior. —Sabe, se não fosse uma traidora, seria bastante divertida. Ela encolheu os ombros. —Alguma vez teve em conta suas ações? O que custaram? A gente a que fez mal? Joseph a olhou nos olhos intensamente. Não sabia por que, mas estava resolvido a que esta pequena espiã tivesse consciência. Podia ter sido uma boa pessoa, estava seguro disso. Era elegante, e divertida, e... Joseph moveu sua cabeça negativamente para desprezar seus pensamentos caprichosos. Via-se como seu salvador? Não a havia trazido até aqui para sua redenção. Quão único queria era a informação que acusaria ao Oliver Prewitt. Então a levaria às autoridades. É obvio, provavelmente ela também veria a forca. Era um pensamento sensato, mas de certo modo, não gostava. —Que esbanjamento — murmurou. Ela elevou suas sobrancelhas a modo de pergunta. —Nada. Seus ombros subiram e baixaram com um movimento ao estilo francês.

—Que idade tem? — perguntou precipitadamente. Ela tirou de repente seus dez dedos duas vezes. —Só vinte? — perguntou com incredulidade. — Não é que pareça mais velha, mas eu pensei...

Rapidamente ela levantou outra vez uma mão, com os cinco dedos estendidos como uma estrela do mar. —Vinte e cinco, então? Afirmou com a cabeça, mas olhava para a janela enquanto o fazia. —Deveria estar casada com meninos enganchados a suas saias, e não tentando trair à coroa. Ela baixou a vista, e seus lábios se alisaram em uma expressão que só podia ser triste. Então retorceu suas mãos em um movimento interrogativo e o apontou. —Eu? Ela afirmou com a cabeça. —O que passa comigo? Ela apontou o quarto dedo de sua mão esquerda. —Por que não estou casado? Afirmou, esta vez com muita ênfase. —Não sabe? Olhou-o sem compreender, e depois de alguns segundos moveu negativamente sua cabeça. —Por pouco me caso — Joe tentou que soasse pouco sério, mas qualquer idiota poderia ouvir a dor em sua voz. "O que aconteceu?" moveu a boca sem falar. —Morreu. Ela tragou saliva e colocou sua mão sobre ele em um gesto de simpatia." Sinto muito " Negou com sua cabeça afastando-se dela e fechou os olhos durante um segundo. Quando os abriu, estavam desprovidos de emoção. —Não, você não sente — disse.

Ela voltou a pôr as mãos sobre seu colo e esperou para escutá-lo. De algum modo não parecia correto entremeter-se em sua dor. Entretanto, ele não disse nada. Sentindo-se incômoda com o silêncio, Demetria se levantou e foi andando até a janela. Chovia muito do outro lado da janela, e se perguntou quanta água teria podido recolher em seu potinho. Provavelmente não muita e certamente não a necessitaria depois de todo o chá que lhe dera hoje, embora ainda estava impaciente por ver como funcionara seu plano. Fazia muito que aprendera como entreter-se da maneira mais singela. Um pequeno cálculo aqui e lá, examinando as formas do céu noturno que muda de mês em mês. Possivelmente se ele a mantinha aqui durante algum tempo ela poderia medir semanalmente a quantidade de chuva.  E pelo menos, isto a ajudaria a manter sua mente ocupada. —O que está fazendo? — exigiu-lhe. Ela não respondeu, nem verbal nem de outra forma e tratou de agarrar-se ao final da janela com seus dedos. —Perguntei-lhe o que esta fazendo? — Seus passos acompanharam sua voz, e Demetria soube que estava se aproximando.

 Ela ainda não girou; a janela subiu com facilidade e a garoa soprou dentro do quarto, umedecendo a parte dianteira de seu vestido. —Tonta — disse, segurando com suas mãos as dela. Ela girou rapidamente surpresa. Não esperava que a tocasse. —Vai se impregnar toda até os ossos. — com um delicado empurrão baixou a janela. —E então estará realmente doente. Ela moveu sua cabeça negativamente e assinalou o potinho do suporte. —Certamente não estará sedenta? "Que curioso" gesticulou com a boca. —O quê? Não entendi isso. "Quuuuueeeeeee ccccuuuurrriiiiooosssoooo" gesticulou alargando as palavras esta vez, esperando que tivesse podido ler seus lábios. —Se falasse alto — disse ele pronunciando lenta e pesadamente - poderia compreender o que está dizendo. Demi deu um chute de frustração, mas quando tocou o chão, o fez sobre algo menos plano que o piso. —Auuuuuuuu! — gritou ele. OH, seu pé," perdão, perdão, perdão, perdão, perdão, perdão" gesticulou com a boca, "não era minha intenção ". —Se pensa que posso entender isso — grunhiu ele — está mais louca do que acreditei a princípio. Ela mordeu seu lábio inferior com remorso; então pôs sua mão sobre seu coração. —Suponho que está tratando de me convencer de que foi um acidente? Ela afirmou com a cabeça com a maior seriedade. —Não acredito. Ela franziu o cenho e suspirou com impaciência. Esta mudez estava chegando a ser incômoda, mas não via de que outra forma comportar-se. Exasperada, apontou seu pé.

—O que significa isso? Ela moveu rapidamente seu pé, o pôs no chão, e o pisou muito forte com seu outro pé. Ele a olhou completamente confuso. —Está tentando me convencer de que é algum tipo de masoquista? Odeio desiludi-la, mas nunca me dediquei a esse tipo de coisas. Ela agitou seus punhos no ar e o apontou a ele, e depois apontou a seu pé. —Quer que eu a pise? — Perguntou com incredulidade. Ela afirmou com a cabeça. —Por quê? "Sinto-o" movendo os lábios. —Realmente sente? — perguntou, sua voz saia perigosamente baixa. Ela afirmou com a cabeça. Ele se inclinou aproximando-se mais.

—Seriamente? Afirmou de novo. —Está resolvida a me demonstrar isso? Ainda afirmou de novo, mas esta vez seus movimentos careciam de convicção. —Não vou pisar-lhe o pé — sussurrou. Ela piscou. Joseph lhe tocou a face, sabendo que era uma insensatez, sem poder evitá-lo. Seus dedos desceram para sua garganta, deleitando-se com o calor de sua pele - terá que demonstrar-me de maneira diferente. Ela tentou dar um passo atrás, mas tinha sua mão estendida rodeando sua cabeça e a segurava firmemente. —Um beijo, acredito — murmurou — Só um. Só um beijo.

Seus lábios se abriram com surpresa e lhe olhou tão condenadamente assustada e inocentemente que lhe foi possível enganar a si mesmo, se só por um momento ela não fosse Carlotta De Leão, se não fosse uma traidora ou uma espiã; só era uma mulher (uma mulher bastante atraente) e estava aqui, em sua casa, em seus braços. Ele cortou a distância entre eles, e roçou sua boca docemente contra a dela. Ela não se moveu, mas ele ouviu um suave grito afogado de assombro passar através de seus lábios. O barulhinho o encantou (o primeiro que havia feito em todo o dia, salvo por uma tosse), e fez mais profundo o beijo, acariciando a suave pele de seus lábios com sua língua. Ela era doce e salgada, como só uma mulher sabe ser, e Joe estava tão comovido que não se deu conta que não lhe estava devolvendo o beijo. Mas logo notou que estava totalmente quieta em seus braços. Por alguma razão, aquilo o enfureceu. Odiou desejá-la dessa maneira, e queria que ela sentisse a mesma tortura.

—Me beije — grunhiu, as palavras abrasavam contra sua boca — sei que o deseja, vi-o em seus olhos. Durante uns segundos, ela não reagiu, mas então ele sentiu sua mão pequena movendo-se lentamente ao longo de todas suas costas. Ela se aproximou mais a ele, e quando Joseph sentiu o calor de seu corpo pressionando brandamente contra ele, pensou que poderia estalar. Sua boca não se movia com o mesmo ardor que a dele, mas seus lábios se abriram tacitamente encorajando-o a fazer o beijo mais profundo. —Deus santo — murmurou, falando sozinho quando parou para respirar — Carlotta. Ela ficou rígida em seus braços e tentou afastar-se bruscamente. —Ainda não — protestou Joseph. Sabia que isto precisava acabar, sabia que não podia permitir que aquilo fosse mais à frente como seu corpo estava suplicando, mas não estava preparado para liberá-la; precisava sentir seu ardor, tocar sua pele, utilizar seu calor para recordar que estava vivo, e ele... Ela o empurrou para afastar-se e recuou uns passos para trás, até pegar-se contra a parede. Joseph amaldiçoou baixo, e colocou suas mãos nos quadris lutando por recuperar sua respiração. Quando a olhou, seus olhos estavam quase frenéticos, e negou com a cabeça com insistência. —Foi repugnante? — disse mordazmente. Ela moveu sua cabeça negativamente outra vez, um movimento pequeno, mas rápido. "Não posso", gesticulou com a boca. —Bem, eu tampouco posso — disse, com clara aversão a si mesmo em sua voz — mas o fiz de toda forma, assim, que diabos significa isto? Seus olhos se abriram enormes, mas fora disso, não respondeu.

Joseph a olhou fixamente aos olhos durante um longo momento antes de dizer: —A deixarei sozinha então. Ela afirmou muito lentamente. Perguntou-se por que se mostrava tão pouco disposto a deixá-la sozinha. Finalmente, depois de murmurar umas quantas maldições, cruzou a largos passos o quarto até chegar à porta. —A verei pela manhã. A porta se fechou de repente, e Demetria ficou olhando o lugar onde ele esteve durante uns segundos, antes de sussurrar: —Oh, Meu Deus. À manhã seguinte, Joseph se dirigiu ao piso de baixo antes de ir ver sua "convidada". Conseguiria que falasse hoje até se isso acabasse com ele. Este disparate fora muito longe. Quando entrou na cozinha, a senhora Mickle, sua governanta e cozinheira, estava ocupada mexendo algo em uma sopeira.

—Bom dia, senhor — disse.

—Então é assim uma voz feminina? — murmurou Joseph — quase o esqueci.

—Como diz?

 —Não importa. Faria a gentileza de pôr a ferver um pouco de água para chá?

—Mais chá? — perguntou — pensava que gostava mais do café.

—Sim, mas hoje quero chá. — Joseph estava completamente seguro de que a senhora Mickle sabia que havia uma mulher acima, mas trabalhava para ele durante vários anos, e tinham um acordo tácito, lhe pagava bem e com o máximo respeito, e lhe correspondia não fazendo perguntas nem contando intrigas. Era igual com todos os criados. A governanta afirmou com a cabeça e sorriu.

—Então quererá outra grande panela? Joseph lhe devolveu o sorriso com ironia. É obvio este silêncio pormenorizado não significava que à senhora Mickle não gostasse de irritá-lo quando podia.

—Uma panela muito grande — respondeu. Enquanto ela servia o chá, Joe se desviou em busca do Perriwick, seu mordomo; o encontrou polindo a alguma prata que não necessitava absolutamente. —Perriwick — gritou Joseph — preciso enviar uma mensagem a Londres. Imediatamente. Perriwick afirmou com a cabeça com muita pompa.

—Ao marquês? — supôs. Joseph afirmou com a cabeça. A maioria de suas mensagens urgentes eram enviadas ao James Sidwell, o Marquês de Riverdale. Perriwick sabia exatamente como enviá-los a Londres pela rota mais rápida. —Se me entregar — disse Perriwick — deixarei em seu destino imediatamente.

—Primeiro preciso escrever — disse Joseph distraidamente. Perriwick franziu o cenho.

—Posso lhe sugerir que escreva suas mensagens antes de me pedir que as leve, senhor? Seria um uso muito mais eficiente de seu tempo e do meu. Joseph abriu um sorriso pela metade para dizer:

—É um insolente descarado para ser um criado.

 —Só desejo facilitar o governo afável e elegante de sua casa, senhor. Joseph moveu sua cabeça negativamente, maravilhando-se da capacidade do Perriwick para conter a risada.

—Espera um momento e a escreverei agora. — Inclinou-se sobre uma escrivaninha, tomou um papel, pena e tinta e escreveu:

J. Tenho à senhorita De Leão e apreciaria sua ajuda com ela imediatamente. J.

James teve relações anteriormente com a espiã meio espanhola. Ele saberia como fazê-la falar; enquanto isso, Joe só teria que lhe dar muito chá e esperar a que recuperasse a voz. Francamente, não tinha outra opção, seus olhos lhe doíam muito de olhar sua escritura. Quando Joe chegou até a porta do quarto de Carlotta, pôde ouvi-la tossindo. —Diabos — murmurou. Louca. Deve ter começado a recuperar sua voz e decidido tossir para perdê-la de novo. Manteve em equilíbrio o jogo de chá habilmente enquanto abria com chave a porta e a empurrava para abri-la. —Tossindo ainda, já ouço, — disse lenta e pesadamente. Estava sentada sobre a cama, afirmando com a cabeça, e seu cabelo marrom claro parecia de um tato flexível. Ela não tinha boa cara. Joseph se queixou. —Não me diga que agora está doente de verdade? Afirmou com a cabeça, esperando, quase como se fosse chorar. —Assim admite que ontem fingia sua enfermidade? Olhou envergonhada enquanto sua mão se moveu rapidamente como dizendo "de certo modo" —Fingia ou não fingia? Ela o afirmou tristemente, mas apontou sua garganta. —Sim, já sei que realmente ontem não podia falar, mas agora ambos sabemos que não foi um acidente, verdade? Ela baixou o olhar.

—Tomarei como um sim. Ela apontou à bandeja e moveu os lábios. "Chá? " —Sim. — depositou o serviço de mesa e pôs a mão em sua fronte. —Pensei que lhe ajudaria a recuperar sua voz. Diabos, tem febre. Ela suspirou. —O tem merecido. "Sei" gesticulou com a boca, parecendo completamente arrependida. Nesse momento quase lhe pareceu simpático. —Aqui — disse, sentando-se na borda da cama — deveria tomar um pouco de chá. "Obrigado" —Serve? Ela afirmou com a cabeça. —Bem, sempre fui torpe neste tipo de coisa. Marabelle sempre dizia: "Te deixará inválido". Como podia inclusive pensar em falar de Marabelle com esta espiã? "Quem é Marabelle?" gesticulou com os lábios. —Ninguém — disse bruscamente. "Sua prometida?" gesticulou com a boca, seus lábios se moviam cuidadosamente ao pronunciar suas palavras silenciosas. Não lhe respondeu, levantou-se e andou a largos passos até a porta. —Beba o chá — ordenou-lhe — e toque a campainha se começar a sentir-se doente.

Saiu do quarto, batendo a porta atrás dele antes de girar as duas chaves e as fechou com um cruel golpe seco. Demetria olhou fixamente à porta e pestanejou. O que significava tudo isto? Este homem era tão inconstante como o vento. Um minuto ela juraria que lhe tinha carinho, e no seguinte... Bem, pensou, enquanto alcançou o chá e se serviu uma xícara; ele acreditava que era uma espiã traidora, isso devia explicar porquê frequentemente era tão brusco e insultante. Embora (tomou um gole profundo do chá fumegante e suspirou com prazer) não se explicava por que a beijara; e isso certamente não explicava por que deixara. Deixar? Diabos, desfrutara, nunca experimentara nada como isso, muito melhor que o calor e a segurança que ela conhecera quando seus pais ainda viviam, mais do que tudo que ela sentira antes. Foi uma faísca de algo diferente e novo, algo excitante e perigoso, algo muito belo e selvagem. Demetria estremeceu ao pensar o que aconteceria se ele não a chamasse de Carlotta, foi o que lhe devolveu o seu sentido comum. Esticou a mão para servir-se outra xícara de chá, e no processo, roçou ao passar um guardanapo de tecido que cobria um prato. O que era isso? Levantou o guardanapo. Torta doce! Era o paraíso na terra, em um prato de bolachas. Mordeu um pedaço e deixou que se derretesse em sua boca; se perguntou se ele saberia que havia lhe trazido sua comida. Duvidou que lhe tivesse preparado o chá; possivelmente sua governanta tivesse posto a torta na bandeja sem que ele o tivesse ordenado. Melhor comer rápido, disse a si mesma. Quem sabe quando voltaria ele?

 Demetria colocou outro pedaço de torta em sua boca, sufocando um risinho tolo e em silêncio enquanto as migalhas caíam sobre a cama. Joseph não lhe fez o menor caso durante o resto do dia e à manhã seguinte, só foi para assegurar-se de que não tinha piorado e lhe trazer um pouco mais de chá. Parecia aborrecida, faminta e encantada de lhe ver; mas não houve outra coisa que silêncio ao deixar o jogo de chá sobre a mesa e tocar sua testa em sinal de febre. Sua pele estava um pouco quente, mas não parecia arder mais, assim lhe disse outra vez que fizesse soar a campainha se sentia-se doente, e abandonou o quarto. Deu-se conta que a senhora Mickle acrescentara um prato de sanduíches na bandeja, mas não teve coração para levar-lhe. Decidira que não seria necessário matá-la de fome, certamente o Marquês de Riverdale chegaria logo, e não lhe seria possível manter o silêncio com ambos, quando a interrogassem. Realmente, não havia nada que fazer, só esperar. O marquês chegou no dia seguinte estacionando sua carruagem na parada diante de Seacrest Manor, pouco antes de anoitecer. James Sidwell desceu de um salto, vestido elegantemente como sempre. Seu cabelo castanho escuro era um pouquinho comprido para a moda. Tinha uma reputação que ruborizaria ao diabo, mas daria sua vida pelo Joseph, e Joseph sabia.

—Vejo-te perigoso — disse James com franqueza. Joe moveu a cabeça negativamente.

—Depois de passar estes últimos dias encerrado com a senhorita De Leão, considero-me um candidato digno de uma casa de loucos. —Tão mal é? —Prometo-lhe isso, Riverdale — disse — poderia te beijar.

—Espero que não cheguemos a isso.

—Quase me deixa louco.

—Ela? — Respondeu James olhando de esguelha. — Como? Joseph o olhou com o cenho franzido. O tom sugestivo do James estava muito perto da verdade ao assinalar:

—Não pode falar.

—Desde quando?

—Desde que ficou acordada a noite toda tossindo até ficar afônica. James sufocou uma risada.

—Nunca disse que não fosse engenhosa.

—Lhe dá terrivelmente bem não poder escrever.

—Encontro isto difícil de acreditar, sua mãe era filha de um barão e seu pai estava muito bem relacionado na Espanha.

—Me permita me expressar de outra maneira. Ela pode escrever, mas lhe desafio a que decifre os sinais que ela apontou sobre o papel. Além disso, tem um livro cheio de palavras das mais raras, e te garanto que não lhes encontrei nenhum sentido.

—Porquê não me leva a vê-la? É possível que a convença para que recupere sua voz. Joseph moveu negativamente a cabeça e revirou os olhos.

—Toda tua; de fato, pode te fazer cargo desta condenada missão por completo se quiser. Se nunca voltasse a ver essa mulher...

—Vamos, Joe.

—Eu lhe disse que queria estar fora disto - murmurava Joseph enquanto se aproximava com passos pesados às escadas. —Mas me escutaram? Não, e o que consigo? Nem emoção, nem fama, nem fortuna. Não, consegui-a a ela. James o olhou atentamente.

—Se não te conhecesse pensaria que estás apaixonado. Joe bufou, afastando-se para que James não pudesse ver o ligeiro rubor que coloriu suas faces.

—E se eu não desfrutasse de sua companhia não te chamaria para este assunto. James riu a gargalhadas e olhou ao Joseph quando este parou diante de uma porta e girou as chaves nas fechaduras. Joe empurrou a porta aberta e entrou, com as mãos em seus quadris se dirigiu à senhorita De Leão com expressão agressiva. Ela estava ajeitada na cama, lendo um livro como se não se importasse com nada. —Está aqui Riverdale — disse em tom brusco. — Verá que seu joguinho terminou. Joseph se voltou para James com júbilo, disposto a ver como a fazia em pedaços; mas a expressão de James, que em geral era controlada e cortês, foi de total e absoluta comoção.

—Não sei o que te dizer — disse James — exceto claramente que ela não é Carlotta De Leão.




CONTINUA...

EITA! agora vai começar a pegar fogo. o Joseph vai ficar louco que esse tempo todo ela não lhe disse que não era a tal Carlotta. Gente e o que foi essa cena do Joe praticamente implorando a ela pra  beija-lo. Eu particularmente estou amando e sei que agora a história vai começar a tomar outro rumo. Beijos e até o próximo capítulo.

RESPOSTA DO COMENTÁRIO DO CAPITULO 3: AQUI



sábado, 25 de novembro de 2017

Capítulo 3

a-quim-bo (adjetivo). Dos braços. Em uma posição em que os dois descansam sobre os quadris, e os cotovelos ficam para fora. Não posso contar o número de vezes que fiz isso antes. Braços em jarras (aquimbo). De fato, estremeço-me inclusive pensando-o. Do dicionário pessoal de Demetria Trent. 

Demetria tossiu durante toda a noite, durante todo o amanhecer, até que o céu voltou a ficar azul claro; parando somente para verificar seu recipiente para água que estava sobre o suporte. Maldição, nada; bastava-lhe umas poucas gotas de líquido, sentia como se houvesse fogo em sua garganta. Mas com dor de garganta ou sem ela, o plano que tramara parecia atraente; quando abriu a boca para comprovar sua voz, o som que chegou envergonharia a uma rã. Em realidade, pensou que as rãs se envergonhariam de fazer um som como esse, não o duvidava. Demi precisava fazer-se temporariamente muda. Esse homem poderia lhe perguntar o que quisesse, que não lhe seria possível responder a nada.

Seguro que seu sequestrador não pensaria que estava fingindo a doença; abriu muito sua boca e olhou ao espelho, inclinando sua cabeça de forma que o sol iluminasse sua garganta; avermelhada; pareceu-lhe definitivamente monstruosa; e as olheiras começaram a aparecer sob seus olhos, por seguir sem deitar-se por toda a noite, faziam-na parecer ainda pior. Demetria quase saltou de alegria. Se houvesse alguma maneira de fingir febre para que parecesse ainda mais debilitada. Supôs que podia pôr seu rosto perto de uma vela com a esperança de que sua pele se esquentasse anormalmente; mas se ele chegasse nesse momento, custaria-lhe muitíssimo explicar porque tinha uma vela acesa, com uma manhã tão luminosa. Não, a garganta muda teria que ser suficiente; e inclusive se não o fosse, ela já não tinha nenhuma escolha quanto a isso, porque podia ouvir seus passos soando ruidosamente abaixo, no vestíbulo.

 Atravessou correndo o quarto e se meteu depressa na cama, puxando as mantas até seu queixo. Tossiu um par de vezes, e beliscou suas faces para lhes dar a aparência de estar acalorada; então tossiu um pouco mais. Tosse, tosse, tosse. A chave girou na fechadura. Tosse, tosse, tosse, tosse, TOSSE. Estava matando a sua garganta, mas Demetria queria fazer uma estupenda atuação porque ele já estava entrando. Então outra chave girou em outra fechadura. Diabos, esquecera que havia duas fechaduras na porta. Tosse, tosse, tosse, tosse seca, tosse seca, tosse, TOSSE FALSA.

—Meu Deus! O que é esse ruído infernal? Demetria levantou os olhos, se não já estivesse muda teria perdido sua voz. Seu sequestrador parecia arrogante e perigoso na escuridão, mas de dia envergonharia até mesmo Adonis.

De um modo ou outro ele parecia maior quando havia luz; mais forte também, como se suas roupas mal refreassem o poder de seu corpo. Seu cabelo negro estava arrumado cuidadosamente, mas uma mecha solta caía para sua sobrancelha esquerda. E seus olhos que eram cinzas e claros, mas isto era tudo de inocente neles, pareciam olhar mais à frente, muito longe de onde se encontravam. O homem a agarrou no ombro, seu toque queimava sua pele apesar de ter posto o vestido; sufocou um grito e o escondeu com outra tosse.

 —Acredito que ontem à noite disse que me cansei de sua comédia. Ela sacudiu sua cabeça rapidamente, agarrou sua garganta com as mãos e tossiu outra vez. —Não pense nem por um momento que acredito. Ela abriu muito a boca e apontou a sua garganta. —Não vou olhar sua garganta, pequena. Ela mostrou de novo, esta vez golpeando com o dedo em sua boca. —Oh, muito bem. — Seus lábios se fecharam firmemente em uma linha inflexível quando se voltou sobre seus calcanhares, cruzando a largos passos o quarto, e arrancando uma vela fora de seu suporte. Demi olhou com grande interesse como ele tropeçava com a vela e cruzava por detrás da cama. Sentou-se perto dela e o peso de seu corpo fez baixar seu lado do colchão; ela rodou um pouco para ele e pôs suas mãos por fora para parar a descida. Ao fazer isto tocou sua coxa. TOSSE! Esteve a ponto de voar ao outro lado da cama.

—Oh, pelo amor de Deus, hão-me tocado mulheres mais atraentes e mais interessantes que você — disse bruscamente, — não deve ter medo; posso lhe fazer passar fome para que diga a verdade, mas não a violarei. Embora pareça mentira, Demetria acreditou. Além de suas inclinações para o sequestro, não parecia do tipo dos que tomam a uma mulher contra sua vontade. De alguma estranha maneira, ela confiava neste homem. Podia havê-la ferido, podia inclusive havê-la matado, mas não o fez. Sentiu que ele tinha um código de honra e moralidade, que esteve ausente em seus tutores. —E bem? — Insistiu. Ela retrocedeu até onde acabava a cama e colocou suas mãos delicadamente sobre seu colo. —Abra. Ela clareou sua garganta (como se isso fosse necessário) e abriu sua boca; ele pôs a chama da vela perto de seu rosto e olhou dentro. Depois de um momento se retirou, e ela fechou sua boca de repente, olhando-o fixamente nos olhos com grande expectativa. Ficou sério. —Parece como se alguém tivesse metido uma navalha em sua garganta, espero que saiba. Ela assentiu com a cabeça. —Suponho que esteve toda a noite tossindo. Assentiu de novo. Ele fechou os olhos durante uma fração de segundo maior do que era necessário, antes de dizer: —Não estou disposto a admirá-la por isso; causar-se tanta dor para evadir-se de umas quantas perguntas que mostrem sua verdadeira dedicação pela causa. Demi lhe pôs sua melhor expressão de escândalo. —Infelizmente para você, escolheu a causa equivocada. Ela conseguiu um olhar inexpressivo, mas era um olhar honesto; não tinha nem ideia da causa da que lhe estava falando. —Estou seguro de que ainda pode falar. Ela sacudiu sua cabeça negativamente. —Tente-o — inclinou-se e a olhou fixamente e de uma forma tão dura que ela se retorceu. — Por mim. Negou com sua cabeça de novo, esta vez rapidamente, muito rapidamente. Ele se inclinou ainda mais perto, até que seu nariz esteve quase encostado no seu. —Tente-o.

 —Não! — Ela abriu sua boca e lhe gritou, mas realmente não saiu nenhum som.

—Verdadeiramente não pode falar — disse, totalmente surpreso. Ela tentou lhe lançar seu melhor olhar de "Que diabos acredita que estive tentando lhe dizer se pudesse falar?"; mas teve a sensação de que os sentimentos eram muito complicados para uma singela expressão facial.

Repentinamente, ele se levantou. —Volto em seguida. Demetria não pôde fazer nada, só lhe olhou fixamente as costas quando abandonava o quarto. Joseph suspirou irritado quando abriu a porta de seu escritório. Diabos, era já muito velho para isto; com vinte e oito anos podia ser relativamente jovem, mas sete anos com o Ministério de defesa eram suficientes para deixar a qualquer um cansado e farto. Vira morrer a amigos, sua família sempre se perguntava por que desaparecia durante tanto tempo, e sua prometida... Joe fechou os olhos com dor e remorso. Marabelle fazia muito tempo que já não era sua prometida; ela não era a prometida de ninguém e não estava seguro de que o tivesse sido. Enterrada como estava na casa de sua família em Cotswolds. Fora tão jovem, tão bela, tão extraordinariamente brilhante. Fora assombroso, realmente, apaixonar-se por uma mulher cujo intelecto superava o seu próprio.

 Marabelle foi de certo modo um prodígio, um gênio dos idiomas, e era por esta razão que foi recrutada tão jovem no Ministério de Defesa. E então ela recrutou ao Joseph, seu vizinho de tantos anos, coproprietário das melhores casinhas em árvores mobiliadas da Inglaterra, e companheiro em lições de baile. Cresceram juntos, apaixonaram-se, mas Marabelle morreu sozinha. "Não", pensou, "isso não era de todo certo". Marabelle só morrera, ele era o único ao qual deixaram sozinho. Continuara trabalhando para o Ministério de Defesa durante alguns anos, disse-se que devia vingar sua morte, mas frequentemente se perguntava, se não o faria porque não sabia que mais fazer  com sua vida, e seus superiores não lhe queriam deixar partir. Depois da morte de Marabelle se tornou temerário; não lhe importava muito se vivia ou morria, arriscou-se estupidamente em nome de seu país e esses riscos deram resultado. Nunca falhara em nenhuma de suas missões.

 É obvio, também lhe dispararam, envenenaram, e abandonaram ao lado de algum navio, mas isto não era tanto incômodo para o Ministério de defesa como a perspectiva de perder a seu agente mais destacado. Mas agora Joe tentava deixar para trás sua ira. Não havia forma de que pudesse enterrar sua dor, parecia que mudaria o fim deste ódio que varre o mundo que lhe roubara a seu verdadeiro amor e sua melhor amiga; e a única maneira em que podia fazê-lo era abandonar o Ministério de defesa e tentar ao menos levar uma vida normal. Mas primeiro precisava terminar este último caso. O responsável pelo falecimento de Marabelle fora um traidor como Oliver Prewitt; esse traidor fora executado, e Joseph estava resolvido a que Prewitt também visse a forca. Feito isto, de qualquer modo, precisava conseguir alguma informação mais da Carlotta De Leão. Diabo de mulher. Não acreditou nem por um momento que repentinamente ela tivesse começado a padecer de algo estranho. Uma enfermidade horrorosa que lhe tirara a fala. Não, a pequena provavelmente levou meia-noite tossindo ao bruto. Fora quase autêntico, ver sua expressão de susto quando tentava lhe gritar "Não". Teve a sensação de que ela esperava que algum som saísse e ele riu.

Esperava que sua garganta queimasse como os fogos do inferno. Ela não merecia menos. Até tinha um trabalho que fazer; esta missão seria a última para o Ministério de defesa, e embora não queria nada mais que retirar-se definitivamente à paz e tranquilidade de Seacrest Manor, não estava disposto a permitir que esta missão não fosse um êxito. Carlotta De Leão falaria, e Oliver Prewitt seria enforcado. E então Joseph Ravenscroft se converteria em um simples fazendeiro cavalheiresco e aborrecido para terminar sua vida em solitária tranquilidade. Possivelmente começaria a pintar, ou a criar cães de caça. As possibilidades eram intermináveis, e interminavelmente aborrecidas. Mas por agora, tinha um trabalho que fazer. Com severa determinação recolheu três penas, um tinteiro e algumas folhas de papel; se Carlotta De Leão não podia lhe contar tudo o que sabia, poderia escrevê-lo condenadamente bem. Demi estava sorrindo de orelha a orelha. Até aqui sua manhã foi um completo êxito, seu sequestrador estava agora convencido de que não podia falar, e Oliver... Oh, isto fez que sorrisse ainda mais, pensando no que Oliver deveria estar fazendo nesse preciso momento.

Gritando suas grosserias, o mais provável, e atirando um vaso a seu filho; nada de grande valor, é obvio, Oliver era muito ardiloso em seus ataques de ira para destruir algo de grande valor monetário. Pobre Percy, Demi quase sentia lástima por ele, quase. Era duro evocar muita simpatia pelo caipira cabeçudo que tentara forçá-la a noite anterior. Estremeceu ao pensar como se sentiria se realmente tivesse acontecido. Mais ainda, tinha a sensação de que Percy nunca conseguiria sair de debaixo de seu pai, ficaria a meio caminho de converter-se em um ser humano decente. Ela não queria ver isso como algo natural, mas em realidade ele não sairia agredindo a mulheres inocentes se seu pai não o ordenasse. Foi então quando ouviu as pisadas de seu sequestrador no vestíbulo; rapidamente eliminou o sorriso de seu rosto e colocou uma mão sobre seu pescoço. Quando ele voltou a entrar no quarto, ela estava tossindo.

 —Tenho um presente para você — disse com voz suspeitosamente alegre. Ela inclinou sua cabeça em resposta. —Olhe isto, papel, penas, tinta. Não é emocionante? Ela piscou, fingindo não compreender. Oh, maldição, não considerara isto. Não havia forma de lhe convencer de que não sabia escrever, claramente ela era uma mulher culta, e sem dizer, não lhe ia ser possível torcer o pulso nos seguintes três segundos. —Oh, é obvio — disse com preocupação exagerada — necessita algo sobre o que apoiar-se. Que desconsiderado por minha parte não ter em conta suas necessidades. Aqui, me deixe lhe trazer um apoio da escrivaninha; aí tem, justo em seu colo, está cômoda? Ela o olhou furiosamente, preferindo sua cólera a seu sarcasmo. —Não? Aqui, me deixe amaciar seus travesseiros. Inclinou-se para diante, e Demetria que realmente teve suficiente de sua atitude doce e melosa, tossiu sobre sua boca e nariz. Então ele se retirou o suficientemente longe para olhá-la ferozmente; seu rosto era um quadro de completo arrependimento. —Vou esquecer que fez isso — disse apertando os dentes — por isso você deveria estar eternamente agradecida.

 Demetria olhou então fixamente o equipamento de escritura que tinha em seu colo, desesperadamente, tentando imaginar um plano novo. —Agora começaremos? Sua têmpora direita começou a lhe arder, e levantou sua mão para coçar-se. Sua mão direita. Aí foi quando se deu conta. Sempre foi mais hábil com sua mão esquerda; seus primeiros professores lhe repreendiam, gritavam e empurravam, tentando que aprendesse a escrever com sua mão direita; a chamaram estranha, antinatural e profana. Um professor particularmente religioso se referiu a ela inclusive como a semente do diabo. Demi tentara escrever com sua mão direita "Oh, Senhor, como o tentara", mas embora podia segurar a pena de maneira natural, nunca foi possível dominar nada mais que um garrancho ininteligível. Mas todos escreviam com sua mão direita, seus professores insistiram, certamente ela não queria ser diferente.  Demi tossiu tampando seu sorriso; nunca antes esteve tão encantada de ser "diferente". Este tipo esperaria que escrevesse com sua mão direita, já que ele e o resto de seus conhecidos sem dúvida o fariam.

Bem, ela estaria feliz por lhe dar o que ele queria. Esticou sua mão direita, pegou uma pena, molhou-a na tinta e o olhou com aborrecida expectativa. —Alegra-me que tenha decidido cooperar — disse — estou seguro de que o encontrará mais benéfico para sua saúde. Ela bufou e revirou os olhos. —Agora — disse, olhando-a intensamente com perspicácia. — Conhece Oliver Prewitt? Não podia negar isso; a viu abandonando a casa a noite anterior. Mesmo assim, não teria que desprezar sua arma secreta com uma questão tão simples, e assentiu com a cabeça. —Quanto tempo faz que o conhece? Demi pensou sobre isso. Não tinha nem ideia do tempo que Carlotta De Leão esteve trabalhando com o Oliver, isso sim que era um problema, mas também suspeitava que o homem que tinha de pé frente a ela de braços cruzados, tampouco sabia. Melhor dizer a verdade, sua mãe sempre o havia dito e Demi não viu nenhuma razão para mudar de atitude agora. Seria mais fácil manter suas singelas histórias tão verídicas como fosse possível. Vamos ver, esteve vivendo com o Oliver e Percy durante ano e meio, mas os conheceu um pouco antes; Sacou quatro dedos ainda querendo salvar sua escritura para dar uma resposta que fosse prazerosa e complicada. —Quatro meses? Moveu sua cabeça negativamente. —Quatro anos? —Meu deus — Joseph respirou. Não tinham nem ideia de que Prewitt fizesse contrabando de informação diplomática durante tanto tempo. Dois anos, pensaram, possivelmente dois e meio. Quando pensou em tudo o que esta missão pôs em perigo... sem mencionar as vidas que se perderam, como resultado da traição de Prewitt. Muitos colegas mortos, seu próprio amor...

Joe explodiu em cólera e sentindo-se culpado. —Me diga exatamente que tipo de relação tinham — ordenou-lhe com voz grave. "Que lhe diga?" gesticulou com a boca. —Escreva-o! — bramou. Ela respirou profundamente, como preparando-se para alguma terrível tarefa e começou a escrever com dificuldade. Joe piscou. Piscou outra vez. Ela o olhou e sorriu. —Que linguagem está diabo escrevendo? — perguntou. Retrocedeu, muito ofendida. —Que conste que eu não leio espanhol, assim, amavelmente escreva as respostas em inglês, ou se o prefere, francês ou latim. Ela agitou seus dedos e fez uns movimentos que lhe foram difíceis interpretar. —Repito — disse apertando os dentes — escreva exatamente que tipo de relação tinha com o Oliver Prewitt! Ela anotou um montão de garranchos (ele não aceitava que isso fossem palavras) devagar e cuidadosamente, como se estivesse mostrando algo novo a um menino. —Senhorita De Leão! Ela suspirou, e nesse momento lamentou fazer esses garranchos. —Não leio os lábios, mulher. Deu de ombros. —Escreva-o outra vez. Seus olhos resplandeceram de irritação, mas fez o que lhe pedia. Os resultados foram ainda piores que os anteriores. Joseph fechou seus punhos para evitar envolver suas mãos ao redor do pescoço dela.  — Nego-me a acreditar que não sabe escrever. Sua boca se abriu pelo ultraje e golpeou furiosamente as marcas de tinta no papel. —Chamar a isto escritos, senhora, é um insulto às penas e a tinta de todo o mundo.

Pôs sua mão sobre a boca e tossiu. Ou estava rindo? Joseph entrecerrou seus olhos; então se levantou e cruzou o quarto para a mesa de asseio. Agarrou seu livrinho que estava cheio de palavras muito intelectuais e o agitou no ar. —Se tem uma caligrafia tão espantosa, então explique isto ! — ameaçou-lhe. Olhou-o fixamente sem compreender, o que fez que se enfurecesse mais ainda; voltou para seu lado e se inclinou até ficar muito juntos. —Estou esperando — grunhiu. Ela retrocedeu e moveu a boca dizendo algo que ele não pôde decifrar. —Temo-me que não a compreendo — agora sua voz deixara o campo do aborrecimento para aventurar-se no perigoso. Ela começou a fazer todo tipo de gestos soltos, destacando-se a si mesma e sacudindo a cabeça violentamente. —Tenta me dizer que você não escreveu estas palavras? Ela assentiu energicamente. —Quem então? Ela moveu a boca dizendo algo que ele não entendeu. Tinha a sensação de que não estava destinado a compreender. Respirou fatigadamente, e voltou a caminhar até a janela para tomar um pouco de ar fresco. Não fazia sentido que ela não pudesse escrever de maneira legível, mas se realmente não podia, quem escreveu no caderno e que significaria? Havia-lhe dito (quando ainda falava) que não eram mais que uma coleção de um vocabulário de palavras, que era claramente uma mentira, mesmo assim... Deteve-se, tinha uma ideia. —Escreva todo o alfabeto — ordenou-lhe. Ela revirou os olhos. —Agora! — rugiu. Ela franziu o cenho com desgosto, já que seus recursos estavam se esgotando. —O que é isto? — perguntou, segurando o frasquinho que encontrou sobre o batente da janela. "Água", gesticulou com a boca. Era divertido como ela tentava fazer-se compreender algumas vezes. Burlou-se e voltou a pô-lo sobre o batente. —Qualquer idiota veria que não vai chover. Encolheu os ombros como se dissesse "Pode ser". —Tem-no feito? Assentiu com a cabeça, conseguindo olhar muito irritada e aborrecida ao mesmo tempo. Joe voltou de novo para seu lado e olhou para baixo. A M, a N e a O eram mal legíveis, e a C, supôs que podia havê-la escolhido se sua vida dependesse disso, mas fora disso... Estremeceu. Nunca mais. Nunca arriscaria sua vida, e neste assunto, sua prudência, pelo bem da mãe pátria; jurou ao Ministério de Defesa que já acabou, mas se queixaram e lhe adularam até que esteve de acordo em levar o assunto desta última parte da missão. Haviam-lhe dito seus superiores que era porque ele vivia tão perto de Bournemouth. Podia investigar as atividades do Prewitt sem despertar suspeitas. Insistiram, precisava ser  Joseph Ravenscroft, ninguém mais podia fazer o trabalho. Assim Joe concordara. Mas nunca sonhara que terminaria cuidando de uma estranha atraente espiã meio espanhola com a pior escritura da história do mundo civilizado. —Eu gostaria de encontrar a sua instrutora — murmurou — e eu gostaria de lhe dar um tiro. A senhorita De Leão fez outro ruído estranho, e esta vez estava seguro que era uma risada; para ser uma espiã traidora, tinha bastante senso de humor. —Você— disse, apontando — não se mova. Ela colocou suas mãos em seus quadris e lhe pôs um olhar tolo, como dizendo; "Onde iria?" —Voltarei. Saiu com passo irado do quarto, recordando só no último minuto de trancar a porta atrás dele. Diabos. Estava sendo brando; era porque ela não parecia uma espiã, raciocinou.

Havia algo diferente nela; a maioria da gente em seu tipo de trabalho eram vazios ao olhá-los, como se tivessem visto muito. Mas esses olhos verdes azulados como um manancial, se pudesse deixar passar o fato de que estavam um pouco vermelhos devido a sua falta de sono. Eram... eram... Joe ficou mais rígido e desprezou o pensamento de sua mente. Não precisava pensar em seus olhos. Não precisava pensar em nenhuma mulher. Quatro horas mais tarde admitira a derrota. Metera seis xícaras de chá através de sua garganta, já que ela não fizera mais que provocá-lo, com os movimentos loucos com suas mãos, que interpretou finalmente como "Abandone o quarto para que possa utilizar o urinol" Mas sua voz não voltava, ou se o fez, ela era bastante hábil para ocultá-la. Fora bastante estúpido tentar aproximar a pena e a tinta uma vez mais. Sua mão se moveu com graça e velocidade, mas os traços que deixava no papel não pareciam mais que rastros de pássaro. E, maldita menina, parecia estar fazendo de propósito. O pior é que o estava conseguindo. Enquanto ele se queixava pela ausência de sua habilidade comunicativa, ela dobrara uma das folhas que escrevera com garranchos em forma de pássaro e procedeu a lançá-lo diretamente para ele. Planou brandamente pelo ar, e uma vez que Joe se esquivou de seu caminho, aterrissou devagar no chão. —Bem feito— disse Joseph, impressionado a seu pesar; sempre gostara dos pequenos objetos como esse. Ela sorriu orgulhosamente; pegou outro pássaro de papel e este saiu diretamente pela janela. Joe sabia que devia repreendê-la por perder tempo, mas queria ver como saía seu trambolho. Foi da mesa até a janela para ver a queda em espiral dentro de uma roseira. —Caiu entre as flores, temo — disse, voltando o rosto para ela. Ela lhe lançou um olhar de irritação e foi até a janela. —Vê — disse Joe. Ela sacudiu sua cabeça em sinal negativo. Apareceu ficando perto dela. —Justo aí — disse, apontando — na roseira.

Ela se estirou, colocou as mãos em seus quadris e lhe lançou um olhar sarcástico. —Atreve-se a burlar-se de minha roseira? Fez um movimento como de tesouras com seus dedos. —Acredita que necessitam uma poda? Afirmou com a cabeça de modo cortante. "Uma espiã que gosta dos jardins" disse Joe a si mesmo, "alguma vez deixará de me assombrar?" Colocou sua mão perto de sua orelha para lhe fazer saber que não o tinha ouvido. —Preciso supor que você poderia fazer um trabalho melhor? — disse humoristicamente. De novo ela afirmou com a cabeça, retrocedeu até a janela para jogar outro olhar aos arbustos, mas  não a Joseph vira vir e se dirigiu ali mesmo , exatamente no mesmo momento; chocaram-se, um contra o outro e ele tentou agarrar a parte superior dos braços para evitar que caísse.

E então cometeu o engano de olhá-la aos olhos. Eram suaves e claros, e que o céu lhe ajudasse mas não lhe estavam dizendo "não". Inclinou-se menos de uma polegada, querendo beijá-la mais que queria respirar. Os lábios dela se abriram, e um pequeno grito sufocado de surpresa escapou de sua boca. Ele se aproximou mais, desejava-a, desejava a Carlotta. Desejava a Carlotta. Diabos. Como podia havê-lo esquecido sequer por um segundo? Ela era uma espiã, uma traidora, completamente sem moral nem escrúpulos. Empurrou-a longe dele e caminhou a largos passos para a porta. —Isto não acontecerá outra vez — disse baixando a voz. Ela o olhou muito aturdida para responder. Joseph amaldiçoou sob sua respiração e saiu com passo irado, batendo a porta e trancando-a atrás dele. Que diabos era que ia fazer com ela? Pior ainda, que diabos era que ia fazer consigo mesmo? moveu Joe  cabeça negativamente enquanto colocava o ferrolho e desceu as escadas. Isto era ridículo. Não lhe interessavam as mulheres para nada mais que a mais básica das razões, e inclusive para isso Carlotta De Leão era enormemente inapropriada. Ele não desejava despertar com um corte em sua garganta. Ou não despertar absolutamente, que seria o mais provável. Precisava recordar quem era ela. E precisava recordar a Marabelle.



CONTINUA....



O Joe está todo confuso não sabe se odeia ou se gosta da Demetria/Carlotta. Eu tô mais que ansiosa pra ver quando ela descobre quem de fato é ela. E vocês?

me digam o que acham do capítulo e da história nos comentários. Até o próximo capítulo




domingo, 19 de novembro de 2017

Capítulo 2

pug-na-cious (adjetivo). Disposto a lutar, dado ao combate, lutador. Posso ser lutador (pugnacious) quando estou em apuros. Do dicionário pessoal de Demetria Trent  

Joseph Ravenscroft não estava seguro do aspecto que ele pensou que teria a mulher, mas certamente não era este. Pensou que pareceria doce, tímida, manipuladora. Em troca, ela permaneceu em pé, manteve seus ombros retos e o olhou fixamente aos olhos. E tinha a boca mais fascinante que jamais vira. Não sabia como descrevê-la, exceto que seu lábio superior se arqueava da forma mais deliciosa e...

—Acredita que existe a possibilidade de que aponte com a pistola para outra parte? Joseph despertou bruscamente de seu sonho, horrorizado por sua falta de concentração.

 —Gostaria disso, verdade?

—Pois sim, em efeito, tenho um pouco de mania, sabe? Não entendo muito bem as armas, precisamente; são boas para alguns fins, suponho que para caçar e isso, mas não desfruto especialmente quando me apontam diretamente, e...

 —Silêncio!

  Ela fechou sua boca. Joseph a estudou durante uns minutos. Algo nela não estava certo, Carlotta De Leão era espanhola... bom, meio espanhola pelo menos, e esta garota parecia inglesa por toda parte; seu cabelo não podia dizer-se que era loiro, mas certamente tinha um matiz claro de castanho e inclusive na noite escura pôde ver que seus olhos eram de um claro verde-azulado. Sem mencionar sua voz, que tinha certo sotaque com o acento inglês da nobreza britânica, mas ele a vira sair às escondidas da casa do Oliver Prewitt, a altas horas da noite, com todos os criados de licença; precisava ser Carlotta De Leão, não havia outra explicação. Joseph e o Ministério de Defesa, no qual não estava precisamente trabalhando, mas lhe deram ordens em referência a uma carta de câmbio incomum, de um banco que esteve procurando o Oliver Prewitt durante aproximadamente seis meses. As autoridades locais sabiam há algum tempo que Prewitt fazia um importante contrabando da França, mas foi recentemente, que começaram a suspeitar sobre o enredo que permitia aos espiões de Napoleão usar seu pequeno navio para levar mensagens diplomáticas, segredos junto com sua carga habitual de conhaque e seda; desde que o navio do Prewitt navegava de uma baía pequena ao sul da costa entre Portsmouth e Bournemouth, o Ministério de Defesa a princípio não lhe prestara muita atenção; a maioria dos espiões faziam suas travessias a partir de Kent, que estava muito mais perto da França. A aparentemente inconveniente localização de Prewitt, foi um excelente estratagema, e o Ministério de Defesa temia que as forças de Napoleão a estiveram usando para suas mensagens mais importantes; fazia um mês que descobriram que o contato do Prewitt era Carlotta De Leão, meio espanhola, meio inglesa e cem por cento letal. Joe esteve em alerta toda à tarde, mal averiguou que todos os criados dos Prewitt tinham a noite livre, um gesto nada comum para um homem tão notoriamente miserável como Oliver Prewitt; sem dúvida algo estava tramando, e as suspeitas de Joseph foram confirmadas, quando viu a garota sair furtivamente da casa coberta pela escuridão; Era tão jovenzinha que supôs que não a deixaria aparentar inocência para dissuadi-lo; provavelmente mostraria esse olhar de jovem condenada. Quem suspeitaria que uma jovenzinha tão encantadora fosse capaz de alta traição? Seu cabelo comprido estava estirado para trás em uma trança juvenil, suas faces tinham esse rubor, essa aparência de limpeza, e... E sua delicada mão estava descendo lentamente para seu bolso. Joseph finalmente se deixou levar pelos instintos, seu braço esquerdo se estendeu com uma velocidade surpreendente golpeando a mão dela para mudar sua trajetória ao mesmo tempo que se equilibrava para frente; chocou-se contra ela com todo seu peso e os dois caíram ao chão. Ele sentiu sua suavidade debaixo dele, exceto é obvio, pela dura pistola de metal de seu bolso oculto. Se ele tinha alguma dúvida de sua identidade antes, esta desapareceu. Pegou a pistola e a colocou no cinto da calça, e ficou de pé voltando-se para trás, deixando-a atirada no chão.

—Muito pouco profissional, meu amor. Ela piscou e então resmungou.

—Vale, sim, isto é o que se esperava já que mal sou uma profissional neste tipo de coisas, embora tenha tido alguma experiência com... Suas palavras foram apagando-se até converter-se em um murmúrio ininteligível e ela não estava totalmente seguro se para ele ou para si mesma.

—Estive atrás de você durante aproximadamente um ano, — disse bruscamente e com isto atraiu sua atenção.

—Esteve atrás de mim?

—Não soube quem era até o mês passado, mas agora que a tenho, não a deixarei escapar.

—Não me deixará escapar? Joseph a olhou fixamente, irritado pela confusão. Qual era seu jogo?

—Acredita que sou idiota? — cuspiu.

—Não — disse ela. — Acabo de fugir de uma guarida de idiotas, estou bem familiarizada com essa raça, e você é um pouco mais que isso. De qualquer maneira, espero que não seja um bom atirador.

—Eu nunca falho. Ela suspirou.

—Sim, estou me assustando muito; olhe como estou. Incomodo se me jogo para trás? Ele moveu a arma menos de uma polegada, o suficiente para lhe recordar que estava apontando ao coração.

 —Neste momento, acredito que prefiro sua postura no chão.

 —Pressinto o que é que preferiria — murmurou — não acredito que me deixe seguir meu caminho. Sua resposta foi uma risada.

—Temo que não, meu amor, seus dias como espiã terminaram.

—Meus dias como o quê?

—O governo Britânico sabe tudo sobre você e sobre suas maquinações de traição, senhorita Carlotta De Leão, acredito que se dará conta de que nós não olhamos muito amavelmente aos espiões espanhóis. Seu rosto era um quadro perfeito de incredulidade.

 —Deus! Miúda era essa mulher. O governador me conhece? — perguntou, — espere um momento. Conhece quem?

—Não se faça de estúpida, senhorita De Leão, sua inteligência é bem conhecida aqui e em todo o continente. —Esse é um galanteio muito bonito, seguro, mas temo que houve um engano. —Não há engano. Vi quando abandonava Prewitt Hall.

—Sim, é obvio, mas...

—De noite... — continuou — com todos os criados de licença, não se deu conta que estivemos vigiando a casa, verdade?

—Não, não, é obvio, não me dei conta. — respondeu Demetria piscando furiosamente. Alguém esteve vigiando a casa? Como não o notara? — Durante quanto tempo?

 —Duas semanas. Isto explicava, esteve em Bath durante os últimos quinze dias, atendendo à solteirona e doentia tia de Oliver, e acabava de retornar esta tarde.

 —Mas estava o suficientemente longe, — continuou — confirma nossas suspeitas.

—Suas suspeitas? — repetiu. Que diabos estava dizendo este homem? Se estava louco, ela tinha um grave problema, porque ele ainda lhe apontava com a pistola no meio de seu corpo.

—Temos suficiente para acusar ao Prewitt, seu testemunho assegura que o pendurem, e você, meu amor, aprenderá a amar a Austrália. Demetria sufocou um grito, seus olhos se iluminaram com encanto. Estava Oliver envolto em algo ilegal? Oh, isto era maravilhoso! Perfeito! Ela estava certa de que não era mais que um pobre estelionatário. Sua mente ia à máxima velocidade; apesar de tudo o que havia dito o homem de negro, ela duvidava que Oliver fizesse algo tão mau para pendurá-lo.
Possivelmente o enviassem a prisão, ou o obrigariam a fazer trabalhos forçados, ou...

 —Senhorita De Leão? — disse o homem de maneira cortante. A voz de Demetria era ofegante e muito emocionada quando perguntou.

— O que esteve fazendo Oliver?

—Pelo amor de Deus, mulher, já tive suficiente de sua farsa, venha comigo. Deu um passo para diante com um grunhido ameaçador e a agarrou pelos pulsos. —Agora.

—Mas...

—Nenhuma palavra a menos que seja uma confissão.

—Mas...

—Isso é tudo! — colocou um trapo em sua boca.

— Terá tempo de sobra para falar mais tarde senhorita De Leão. Demetria tossiu e grunhiu furiosamente quando ele atou seus pulsos com um áspero pedaço de corda; então, para seu assombro, pôs dois dedos dentro de sua boca e deixou sair um profundo assobio. Um magnífico cavalo castrado negro saiu fazendo cambalhotas dentre as árvores, com passos largos e elegantes. Enquanto ela ficava boquiaberta observando ao cavalo, que devia ser o animal mais tranquilo e melhor amestrado na história da criação, o homem a levantou e colocou sobre a sela.

—Mmm. fffl... — grunhiu, lhe sendo completamente impossível falar com o trapo imundo dentro da boca.

—O quê? — ele a olhou por cima e desviou seu olhar a suas saias que deixavam as pernas à vista. —Oh, suas saias, posso as cortar se você pode prescindir delas com decoro. Ela o olhou ferozmente. —Fora com o decoro, então — disse, e empurrou suas saias para cima para que ela pudesse montar no cavalo com mais comodidade. —Sinto muito, não pensei em trazer uma sela de mulher, senhorita De Leão, mas confie em mim quando te digo que tem maiores preocupações que o fato de que eu esteja vendo suas pernas nuas. Ela lhe deu um chute no peito. Ele fechou sua mão ao redor de seu tornozelo lhe causando dor. —Nunca — espetou-lhe — dê um chute em um homem que está lhe apontando uma pistola.

 Demetria ergueu o nariz e afastou o olhar. Esta tolice chegou muito longe; logo que se livrasse desta condenada mordaça, diria a este bruto que nunca ouviu falar de sua senhorita De Leão, ela enviaria os policiais tão rápido que teria que suplicar pela corda para enforcar-se. Mas enquanto isso, faria o possível por lhe fazer a vida impossível; logo que montou no cavalo e se colocou na sela atrás dela, empurrou-lhe o cotovelo nas costelas, duramente.

—O que passa agora? — disse ele secamente. Ela encolheu os ombros inocentemente. —Outro movimento como esse e lhe coloco outro trapo na boca, e este estará menos limpo que o primeiro.

Como se isso fosse possível, pensou Demetria furiosamente, não quis pensar onde esteve o trapo antes de estar em sua boca; Tudo o que ela podia fazer era olhá-lo ferozmente, e pela forma em que lhe falava bufando, ela temeu que não parecesse o suficientemente furiosa. Mas então ele pôs o cavalo a meio galope e Demi se deu conta de que enquanto eles fossem cavalgando para Portsmouth, estariam se afastando de Prewitt Hall. Se ela não estivesse com as mãos atadas teria batido palmas de alegria; não poderia ter escapado tão rápido se tivesse planejado a viagem ela mesma. Este homem podia pensar que ela era alguma outra, uma criminosa espanhola, para ser precisa, mas ela podia esclarecer tudo isto uma vez que ele a tivesse levado longe, muito longe. Enquanto isso, estaria calada e tranquila, e lhe deixaria que levasse a cavalo rapidamente. Trinta minutos mais tarde um Joseph Ravenscroft muito receoso desmontou diante de Seacrest Manor, perto de Bournemouth, Dorset. Carlotta De Leão, que elaborara todo tipo de impropérios, até para as unhas dos dedos de seus pés quando a derrubou no prado, não devotara a menor resistência em toda a viagem a cavalo pela costa, não lutara nem tratara de escapar; de fato, esteve tão calada, que devido A seu lado cortês, "ele deixava ver seu lado mais cortês muito frequentemente", esteve tentado a lhe tirar a mordaça, só por carinho. Mas reprimiu o impulso de ser agradável; o marquês de Riverdale, seu melhor amigo e frequente companheiro na prevenção do crime, teve relações com a senhorita De Leão e dissera ao Joe que ela era enganosa e letal. Não lhe tiraria a mordaça e as amarras até que estivesse bem encerrada sob chave. A fez descer do cavalo, segurando seu cotovelo com firmeza para que entrasse em sua casa. Joseph só tinha três criados em sua casa, todos eles de uma discrição incomparável, e estavam acostumados a visitantes estranhos a meia-noite.

 —Suba as escadas — grunhiu empurrando-a para atravessar o vestíbulo. Ela assentiu com a cabeça alegremente, (Alegremente?!) e subiu com cuidado. Joseph a dirigiu para o andar de cima e a colocou a empurrões em um dormitório pequeno, mas mobiliado confortavelmente. —Assim não terá a ideia de escapar — disse asperamente mostrando duas chaves — a porta tem duas fechaduras. — Ela jogou uma olhada a maçaneta da porta, mas foi outra artimanha que tampouco causou reação. —E — acrescentou, — há 15 metros até chegar ao chão, assim lhe recomendaria que não o tentasse pela janela. Encolheu os ombros, como se não tivesse considerado em nenhum momento a janela, como uma opção viável de fuga; Joe a olhou com o cenho franzido, irritado por sua indiferença, atou seus pulsos ao pé da cama. —Não quero que tente nada enquanto estou ocupado. Ela lhe sorriu, o que era uma verdadeira proeza com o trapo sujo em sua boca. —Diabos! — murmurou ele; o confundira totalmente, e não gostava nada dessa sensação. Deteve-se para certificar-se de que as marras eram seguras e começou a inspecionar o quarto, assegurando-se de não deixar objetos que ela pudesse utilizar como armas, ouvira que Carlotta De Leão era engenhosa, e não planejara ser recordado como o idiota que a subestimara. Guardou no bolso uma pena e um peso de papel antes de levar uma cadeira até o corredor; não acreditava que ela fosse tão forte para quebrar uma cadeira, mas se de algum modo a manejasse e lhe quebrasse uma perna, a madeira estilhaçada seria uma arma perigosa. Ela piscou quando ele retornou. —Se quer sentar-se, — disse bruscamente — pode fazê-lo na cama. Ela inclinou sua cabeça de um modo encantador e se sentou na cama; tampouco tinha muita escolha, já que suas mãos estavam amarradas ao pé da cama, depois de tudo. —Não tente me enfeitiçar para que a ajude — advertiu-lhe — sei tudo sobre você. Ela deu de ombros. Joseph bufou com grande desgosto e se voltou de costas para ela, já que terminara sua inspeção do quarto; finalmente, quando ele se convenceu de que o quarto seria uma prisão aceitável, ficou de frente para ela e colocou suas mãos firmemente sobre seus quadris. —Se leva alguma arma consigo, me deve dar agora, porque depois terei que revistá-la. Ela cambaleou mostrando seu horror, e  Joe agradeceu que finalmente conseguira ofendê-la; quem quer que fosse, era uma atriz prodigiosa. —Bom, não tem nenhuma arma? Asseguro-lhe que serei menos amável se descobrir que tentou me ocultar algo. Ela sacudiu sua cabeça freneticamente e estirou suas amarras, como se tratasse de afastá-lo o máximo possível. —Eu não vou gostar disto — murmurou.

Tratou de não parecer um completo descarado já que ela fechou seus olhos fortemente com temor e resignação. Sabia que as mulheres podiam ser tão malvadas e perigosas como os homens (sete anos de trabalho com o Ministério de Defesa o convenceram sobre isto), mas nunca realizara esta parte de seu trabalho; o educaram para tratar às mulheres como damas, e ia contra sua moral as revistar contra sua vontade. Cortou e liberou um de seus pulsos para poder tirá-los da frente e procedeu a esvaziar seus bolsos; não continham nada interessante, salvo umas cinquenta libras em notas e moedas, o que lhe pareceu uma soma insignificante para uma espiã notável; então lhe chamou a atenção sua pequena bolsa e esvaziou o conteúdo sobre a cama. Duas velas de cera de abelha (só Deus sabia para que queria ela isso), uma escova para o cabelo com o dorso de prata, uma Bíblia pequena, um caderno com a capa de couro e algumas coisas de menos valor que não pegou para não manchar-se ao tocá-las. Supôs que todo mundo merecia um pouco de privacidade, inclusive os espiões traidores. Recolheu a Bíblia e passou as folhas rapidamente assegurando-se de que não havia nada colocado entre suas páginas. Satisfeito de que o livro não tivesse nada adverso, voltou-o a atirar sobre a cama, notando com interesse que ela se sobressaltava enquanto o fazia. Então agarrou o caderno e olhou em seu interior, só algumas páginas continham alguns garranchos.

—Contubernal — leu em voz alta — Halcyon, Diacritical, Titivate, Umlaut. Levantou suas sobrancelhas e seguiu lendo; três páginas cheias do tipo de palavras que aprendeu no primeiro curso em Oxford ou Cambridge. —O que é isto? Ela sacudiu seu ombro para sua boca, assinalando o trapo. —De acordo — disse ele com um movimento brusco de cabeça, colocando o caderno perto da Bíblia — mas antes de tirá-la terei que... — suas palavras foram se desvanecendo pouco a pouco, deixando sair um suspiro desventurado. Ambos sabiam o que precisava fazer. —Se não opor resistência, farei o possível por terminar mais rápido — disse severamente. Seu corpo inteiro estava tenso, mas Joseph tentou ignorar sua angústia conforme passava suas mãos até chegar a suas pernas. —Bom, já está — disse mal-humorado. — Devo dizer que estou bastante surpreso de que não leve nenhuma outra pistola. Ela o olhou ferozmente em resposta. —Tirarei-lhe o trapo agora, mas um ruído forte e o volto a pôr. Ela moveu a cabeça bruscamente, tossindo quando lhe tirou o trapo. Joseph se apoiou descaradamente contra a parede e perguntou: —Bem?

—De toda forma, ninguém me ouviria se eu gritasse.

—Isso é muito certo — concedeu. Seus olhos se desviaram para o caderno de couro e o agarrou. —Agora, suponho que me explicará o que é tudo isto. Ela deu de ombros.

—Meu pai sempre me animou a aumentar meu vocabulário. Joe a olhou fixamente em sinal de incredulidade; então voltou a abrir as páginas outra vez, isso era algum tipo de código, precisava ser isso, mas estava cansado e sabia que se ela confessasse algo essa noite, não ia ser algo tão perigoso como a chave de seu código secreto, assim atirou o livro em cima da cama e disse:

 —Falaremos disto amanhã. Ela realizou outro desses incômodos encolhimentos de ombros. O fez ranger seus dentes. 

— Tem algo a dizer de você? Demi esfregou os olhos, recordando-se que precisava permanecer ao lado deste homem; parecia perigoso e apesar de seu evidente mal-estar por revistá-la, ela não tinha dúvida de que a machucaria se considerasse que era necessário para sua missão; faria qualquer coisa. Ela estava jogando a um jogo perigoso e sabia; queria permanecer aqui nesta agradável casa, tanto tempo como fosse possível, (certamente era mais quente e mais seguro que qualquer outro lugar que ela mesma tivesse conseguido). Feito isto, de qualquer maneira, ela precisava lhe deixar que continuasse acreditando que ela era a tal Carlotta De Leão; não tinha nem ideia de como fazê-lo, não sabia espanhol, e com segurança, não sabia como se supunha que atuava uma criminosa quando a capturavam e a atavam ao pé de uma cama. Supôs que Carlotta tentaria negar tudo. —Equivocou-se de pessoa — disse, sabendo que ele não acreditaria e lhe causando um prazer perverso pelo fato de que estava dizendo a verdade.

—Já! — bramou — seguro que pode sugerir algo um pouco mais original.

—Pode acreditar o que quiser.

—Parece que atua com muita confiança para ser alguém que está claramente em desvantagem. Demetria teve que lhe dar a razão nisso, mas se Carlotta era realmente uma espiã, ela precisava ser uma mestra em valentia.

—Já não me importa ser atada, amordaçada, arrastada por todo o campo, e atada ao pé de uma cama; sem mencionar — afirmou — ser forçada e me submeter a sua revista insultante. Ele fechou os olhos por um momento, e se Demetria não o tivesse conhecido melhor, teria pensado que lhe doía algo; então, abriu-os e a voltou a olhar com um olhar duro e intransigente. Disse:

 —Acho difícil de acreditar, senhorita De Leão, que tenha chegado tão longe em sua profissão favorita sem que a tenham revistado ainda. Demetria não sabia que dizer a isto assim só o olhou ferozmente. —Ainda estou esperando que fale.

—Não tenho nada que dizer — isto, ao menos, era certo.

—Pode ser que mude de opinião depois de alguns dias sem comida nem água.

—Então planeja me matar de fome? Homens mais duros que você tem caído. Ela não considerou isto, pensou que gritaria, pensou que ele poderia inclusive golpeá-la, mas não lhe ocorreu que poderia negar comida e água.

—Vejo que não lhe entusiasma o panorama — disse lenta e pesadamente.

—Me deixe sozinha. Deu um golpe seco; precisava elaborar um plano. Precisava resolver quem diabos era esse homem; mais que tudo, o que precisava era tempo. Olhou-o aos olhos e disse: —Estou cansada.

—Estou seguro disso, mas não estou particularmente inclinado a deixá-la dormir.

—Não precisa preocupar-se por meu bem-estar; não é provável que me sinta bem descansada, depois de passar a noite atada ao pé da cama.

—Oh, isso, — disse ele, velozmente e com um movimento rápido de seu pulso a liberou.

—Porquê fez isso? — perguntou desconfiadamente.

—Agrada-me fazê-lo; além disso, não tem armas, dificilmente me pode vencer e não tem forma de escapar. Boa noite, senhorita De Leão. Sua boca se abriu de repente.

—Já vai?

—Dava-lhe boa noite. Voltou-se sobre seus calcanhares e abandonou o quarto deixando-a boquiaberta na porta. Ouviu girar duas chaves nas duas fechaduras antes de recuperar a compostura.

—Meu Deus, Demetria —sussurrou a si mesma— No que te colocaste?

Seu estômago retumbou e ela desejou ter pego algo para comer antes de escapar essa noite. Seu sequestrador parecia um homem de palavra, e se lhe disse que não ia dar comida nem água, ela acreditava. Correu até a janela e olhou para fora; não lhe mentira, havia ao menos 15 metros até o chão; mas havia um suporte, se ela encontrasse algum tipo de recipiente, poderia colocá-lo fora e recolher chuva e orvalho. Passou fome antes, e sabia que ela podia lidar com isto. Mas junto com a sede, era muito. Encontrou um recipiente pequeno, cilíndrico, usado para segurar as penas na escrivaninha. O céu ainda estava claro, mas o tempo inglês era como era; Demi imaginou que haveria uma mudança decente, e choveria antes que fosse manhã, assim colocou o recipiente no batente, no caso de chover. Então cruzou até sua cama e voltou a colocar seus pertences dentro da bolsa. Graças ao céu, seu sequestrador não percebeu o nome do titular que estava escrito dentro da Bíblia. Sua mãe lhe dera o livro quando morreu, e certamente ele desejaria saber por que o nome de Cassandra Trent estava escrito na parte interior da capa. E a reação dele a seu pequeno dicionário pessoal... céus, teria problemas para explicar isso. Então ela teve uma sensação muito estranha... tirou os sapatos e deslizou fora da cama, caminhando em silêncio, só calçada com as meias, até que ela alcançou a parede pegada ao vestíbulo. Moveu-se grudada ao longo da parede até que alcançou a porta, inclinando-se e olhando com curiosidade através do buraco da fechadura. Ahá! Justo o que pensou. Um olho grande e cinza também a olhava curiosamente. —E boa noite a você! — disse ela em voz alta. Então pegou seu chapéu e o pendurou sobre a maçaneta de modo que tampasse o buraco da fechadura. Não queria dormir com seu único vestido, mas certamente não havia forma de despir-se com a possibilidade de que ele estivesse vendo-a. Ouviu-o amaldiçoar uma vez, e duas vezes. Então seus passos ressoaram dirigindo-se até atravessar o vestíbulo. Demi tirou sua saia e se meteu na cama; olhou fixamente o teto e começou a pensar, e então começou a tossir.



CONTINUA...

Será que o Joe vai deixar mesmo a Demi com fome? kkkkkkkkkkkkk perceberam já a tensão na hora da revista? imagina só durante o restante da história como vai ser entre esses dois.

desculpa se eu esqueci de trocar o nome em algum momento, obrigada ao comentário da última postagem e até  o próximo capítulo. comentem mais, beijos





DNCE ESTÁ NO BRASIL AAAAAAAAAA